A anglomania
Émile Gautier
Apresentação
Originalmente publicada no periódico Le XIXe Siècle, em 1887, sob o pseudônimo Raoul Lucet, a crônica “L’Anglomanie” foi republicada anos depois, em 1892, no Écho de Paris — dessa vez, assinada pelo próprio autor, Émile Gautier. Embora a essência das duas versões seja a mesma, algumas diferenças ficam evidentes. A inclusão de referências ao ciclismo é uma delas, e não é um mero acaso: a década de 1890 foi a era dourada da bicicleta. Numa época marcada pela obsessão com a decadência moral e física da sociedade francesa, o esporte ao ar livre e a mobilidade que essa invenção proporcionava rapidamente a transformaram num dos agentes do progresso fin de siècle. Entre 1889 e 1891, a disputa entre o escocês John Boyd Dunlop e os irmãos André e Edouard Michelin pelo desenvolvimento de pneus de melhor qualidade traduziu-se em bicicletas mais duráveis e mais baratas, ajudando a popularizá-las. Em 1891, o ciclismo já era o mais popular dos esportes na França. A segunda versão da crônica, então, insere-se num momento em que o país assistia à expansão dessa atividade, assim como de outros esportes de origem britânica, que traziam consigo não apenas novos hábitos de lazer, mas também um vocabulário estrangeiro que rapidamente se infiltrou na imprensa e na conversação urbana.[1]
A forte influência inglesa, entretanto, não era uma novidade. Uma rápida busca em periódicos franceses oitocentistas mostra que, de 1850 a 1900, a ocorrência do termo “anglomanie” cresce exponencialmente, atingindo seu ápice na última década do século. Um exemplo é a crônica “Le mal d’ennui” (1889), cuja tradução publicamos aqui. Nela, Séverine denuncia a anglicização dos costumes como um dos fatores que estariam impedindo suas contemporâneas de reproduzir o brilho das mulheres de tempos passados. Essa influência, vale ressaltar, era recorrentemente citada como um dos promotores da degradação da língua e da sociedade francesa finissecular. É nesse cenário, portanto, que Émile Gautier, de forma satírica, critica a invasão de termos ingleses que, a seu ver, ameaçavam a clareza e a elegância da língua francesa.
O cronista descreve a infiltração da anglomania como uma “mancha de óleo corrosivo” que se espalha sorrateiramente pelos costumes nacionais. As palavras inglesas surgem como intrusas altivas que não se integram ao organismo da língua francesa, mas o deformam com neologismos mal assimilados e pronúncias afetadas. A crítica de Gautier, contudo, ultrapassa o plano linguístico ao questionar o prestígio automático e a imitação acrítica, movida por vaidade ou desejo de distinção social, de tudo aquilo que vem do outro lado do Canal da Mancha.
Em tempos de globalização, o uso banalizado de anglicismos está mais presente do que nunca, não só na língua francesa, mas na portuguesa e em tantas outras. Acreditamos que aquele leitor que alguma vez se perguntou “Por que usar bowl se temos cumbuca?” vai, em certa medida, se identificar com a indignação do autor.
Boa leitura!
[1] WEBER, Eugen. França fin-de-siècle. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
A anglomania
Émile Gautier
Tradução de Fernanda Garcia

A anglomania nos invadiu! A anglomania nos gangrena!
Dos hipódromos ou velódromos suburbanos, ela vem aos poucos se infiltrando sorrateiramente em nossos hábitos e costumes nacionais, como uma mancha de óleo corrosivo, que distorce e estraga. De cima a baixo, toda a sociedade francesa tenta, em maior ou menor grau, copiar os senhores bookmakers, que são, do lado de cá do Canal, os missionários do contágio britânico. Começamos tomando emprestados aqueles formidáveis e já conhecidos ternos xadrez, as gravatas num tom vermelho sangue de boi, e aqueles sobretudos bege — cor de lama —, que fazem com que até mesmo o cavalheiro mais vistoso e a parisiense mais refinada pareçam estar vestindo um saco de batatas. Depois, tomamos emprestadas suas bebidas, que cheiram a verniz; tomamos seu desprezível roastbeef ao molho de água de panela; seu chá nebuloso; seus utensílios, tão pretensiosos quanto inconvenientes; sua desenvoltura de canalhas engomadinhos para a domingueira; seus jogos brutais; sua maneira vitoriosa de pisar nos pés do pobre povo, de dar cotoveladas nos flancos dos vizinhos, de fumar bem debaixo dos narizes das senhoras e de assobiar no ômnibus[1].
…Mas, acima de tudo, é sobre a língua que a anglomania se abate da forma mais odiosa. Foi-se o tempo em que era de bom tom falar o francês de verdade. O que temos hoje é uma baboseira exótica e heterogênea, em que predomina nem mesmo a gíria, mas o slang.
Eu bem sei, por Deus!, que as línguas, que vivem e morrem como os seres organizados, e, como eles, precisam incessantemente assimilar elementos exteriores para rejuvenescer sua substância, não podem prescindir de contínuos empréstimos de línguas vizinhas. Uma língua é, assim como uma raça, uma obra compósita, sucessiva, ininterrupta, em que cada movimento da história deposita, sobre os velhos fundos constitucionais, um sedimento novo, um aluvião estrangeiro. Há um trabalho cada vez mais profundo de internacionalização dos interesses, das ideias, dos hábitos e do verbo…
Que seja! Mas para tudo há um limite. Estamos falando de objetos inéditos, algo recém surgido além das fronteiras, criações exclusivamente estrangeiras? Admito que importemos o nome junto com a coisa. Entendo e aceito que o que é de gênese e fabricação inglesas chegue até nós com a sua marca original, seguindo a fórmula do outro lado do Canal da Mancha. Admito até mesmo que o uso do vocábulo inglês se aclimate tal qual, se, assim como incontáveis exemplos presentes em todos os idiomas, seu sabor intraduzível tiver algo superiormente expressivo e picante, sem equivalente em nosso dicionário. É assim, afinal, que as línguas se enriquecem, tornam-se mais claras e aprimoram-se.
Mas qual o sentido de pedir emprestado ao vizinho quando o que você tem em casa dá conta das suas necessidades? Qual o sentido de recorrer à Inglaterra, que, no fundo, não passa de uma colônia normanda, e cuja língua é feita de migalhas da nossa, para descrever coisas antigas e simples, para as quais temos expressões que são tão boas — se não melhores — do que todos esses anglicismos esmagadores e inoportunos?
Lyncher não me desagrada, nem lawn-tennis, nem humbug, nem mesmo mail-coach[2]. São ideias, coisas, instituições e nuances puramente anglo-saxônicas. Mas a grande vantagem, na verdade, de chamar uma reunião pública de meeting (felizmente, para o orgulho da nação, a classe trabalhadora pronuncia “métingue”), um barco a vapor de steamboat, um lanche rápido de lunch, uma casa de campo de cottage, um discurso de speech, um esboço de sketch, um jardim público de square — a “praça”[3] dos nossos pais! E record, então, essa palavra estúpida e vã, que ninguém entende e da qual todos abusam, e que faz soar as cem trombetas da Fama[4] a ponto de fazê-las explodir.
— “Cassignard cobriu (cobriu o quê, Deuses do céu?) o RECORD da hora, que era detido pelos ingleses![5]”
Ó Bossuet[6], Pascal[7], Diderot[8], Voltaire[9], Paul-Louis[10], Lamennais[11], Proudhon[12], George Sand[13], Michelet[14], About[15], Elisée Reclus[16], Erckmann-Chatrian[17], Alexandre Dumas[18], e o senhor também, Renan[19] (cuja pena não foi demasiadamente distorcida pelo hebraico), todos os senhores que moldaram em letras impressas o gênio luminoso, alerta, límpido e vivo da raça gaulesa, onde estão? Em que outro plum-pudding têm record senão com o oficial de justiça — ou o sollicitor?
É mais claro, mais eloquente, mais conveniente? E que bela notícia é anunciar como Show a próxima Exposição do Velocípede, como todos os jornais especializados têm feito ultimamente! “Este ano, a França estará muito bem representada no Show” (La Bicyclette, 13 de novembro de 1892, p. 427). Show! Cho…colate quente!! Show…penmerda!!![20]
Por que people em vez de “pessoas”, breakfast em vez de “café da manhã”, book em vez de “livro”, home em vez de “lar”, goddam em vez de “meu Deus do céu”[21]? “Por quê?” — ainda pergunto eu? Mas aqui já vamos, aqui já estamos: já passamos da metade! Por que Rivoli-Street[22] e Bonne-Nouvelle-Road[23]? Por que não Luxembourg-Palace[24], Monceau-Park[25] e Concorde-Bridge[26] ?
***
Se ao menos as expressões assim importadas se fundissem ao nosso idioma, sob a pressão deformadora do novo meio! Se assumissem sua marca distintiva, conquistassem sua naturalização! Se elas se afrancesassem, simplesmente…
Mas não, de forma alguma! À exceção de alguns vocábulos, emigrados de longa data, digeridos ao longo do tempo, como “budget”, “redingote”, “bifteck”, “sport”, etc., as palavras inglesas estão entranhadas em nossa língua, à moda inglesa, adotadas, mas não adotivas, como intrusas, usurpadoras intolerantes e impermeáveis, como em um país conquistado. São hóspedes de passagem, às quais deve-se tudo, pois não fazem concessões, e estão em todos os lugares. Pode-se dizer que estão em casa, at home!
Aqueles que, por atavismo, preguiça, vaidade ou desdém, num gesto coquete, ignoram línguas estrangeiras, torturam a própria laringe, salpicando, aqui e ali, em suas frases quase francesas, máquinas como “cleub” [club], “teurfe” [turf], “rèl” [real], “stiple tchèse” [steeplechase], “faïve o’clock ti” [five o’clock tea]... Quase diriam “rivolveur” [revolver], “ouêggheune” [wagon] e “èdgennt” [agent]. O triunfo dos risinhos e das sibilâncias, o nariz quase entrando pela boca! Ao ouvir esses barbarismos, meu sangue meio celta, meio latino, chega a ferver.
Não é de todo mal quando não corrompemos o espírito lúcido e artístico da nossa língua a custo, ainda por cima, de um contrassenso ridículo, quando não chamamos de cofferdam a substância destinada a encher os coffers da dam, quando não dizemos subir no tramway para subir no tram, — no “veículo”, — que corre sobre a “via” férrea: — way, railway!
...O método inglês é bem diferente. Esse povo saqueador teve, evidentemente, de saquear as línguas de seus vizinhos como os demais. Talvez nenhuma língua tenha feito e continue a fazer tantos empréstimos de línguas estrangeiras, e em particular da nossa.
Folheiem um dicionário inglês: logo na primeira página, verão que três quartos das palavras são de origem francesa. Mas quão transfiguradas, quão irreconhecíveis! Longe de afrancesar o molho inglês, elas, pelo contrário, perdem imediata e completamente seu caráter específico, assumindo a marca, a forma, a impregnação britânica: são absorvidas e dissolvidas na língua inglesa.
É assim que se faz na eterna batalha pela existência e pelo triunfo de dialetos e idiomas, que, como os seres vivos, estão sujeitos à transformação darwiniana. Os mais fortes “comem” e digerem os mais fracos. É a lei[27]!
Enquanto o francês cada vez mais se impõe sobre o alemão, penetra-o e decompõe-no, ele será, por sua vez, devorado e digerido pelo inglês, cuja ambição declarada é tornar-se o Volapük universal? E qual o sentido de termos fundado a Aliança Francesa para difundir nossa língua no exterior, se ela é devorada viva em sua própria casa pelo idioma rival, ao qual concede uma hospitalidade demasiado generosa e tão mal retribuída?
Cuidado!... Beware of pickpockets! É pelos ouvidos que se chega ao coração e à mente. É pelas expressões idiomáticas que se começa, e é por mudanças de pensamentos, ideias, modos e instituições que se termina. Temo que o meeting, o club, e os rally-papers (por que não “ramasse-papier”?) nos tragam o spleen, o cant, o snobism, o “gato de nove caudas”[28] e a liberdade (?) como na Inglaterra…
Vamos permitir que a vingança de Hastings seja levada a cabo sem reagir?[29]
Os canadenses, que, como todos aqueles que foram desnacionalizados à força, são mais patriotas que seu próprio país, não sofrem dessas fraquezas. Sua intransigência não tolera a menor influência britânica na bela e ingênua língua francesa do século XVII, cuja herança preservam piedosamente. Embora — ou talvez por isso — tenham vivido por mais de um século sob o domínio inglês, lado a lado com John Bull, seu senhor, pelo menos nominalmente, eles não dizem nem rail, nem wagon, nem beefsteack, nem sleeping-car, nem water-closet; mas sim, ligne, char, grillade de bœf, voiture-dortoir, e, simplesmente, latrines.
Sem ir tão longe, sem fechar zelosamente as portas da nossa língua a empréstimos por vezes indispensáveis, a exotismos preciosos e pitorescos, não poderíamos levar um pouco mais em conta as antigas tradições gaulesas e francesas?! Não poderíamos nós, que temos à nossa disposição, além das línguas mortas, os tesouros dos dialetos celtas ancestrais, das línguas de Oïl e de Oc e dos enérgicos patoás populares, e tantas línguas científicas jovens e assimiláveis sem perigo, não poderíamos colocar um pouco mais de moderação nesta homenagem voluntária que prestamos ao inglês, tão invasor quanto seus falantes?
Não vou propor, certamente, a fundação expressa de uma liga filológica de patriotas. Mas, no fim das contas, os inconvenientes, os perigos e os abusos assinalados são flagrantes, inegáveis. É evidente que algo precisa ser feito para “desanglicizar” a França. Quem é o apóstolo que se encarregará de se sacrificar pelo bem comum e soar o alarme?
[1] Um dos primeiros modelos de ônibus do século XIX, o ômnibus era um veículo coletivo, movido por tração animal, inspirado nas diligências de longa distância.
[2] Em português, “linchar”, “tênis em quadra de grama'“, “impostor”, “diligência-correio”, respectivamente.
[3] Em francês, « une réunion publique », « un bateau à vapeur », « un morceau sur le pouce », « une maison de campagne », « un discours », « un croquis », « un jardin public », « le « quarré » », respectivamente.
[4] Referência à Fama, divindade greco-latina, à qual é atribuída a função de disseminadora de notícias dos deuses e dos homens. Frequentemente representada como uma figura alada tocando trombeta.
[5] Bertrand Georges Cassignard, ciclista francês. O inglês que detinha o recorde anterior possivelmente seria George Pilkington Mills.
[6] Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), bispo e teólogo francês, conhecido por sua habilidade como orador e seus trabalhos literários.
[7] Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico, escritor, filósofo e inventor francês.
[8] Denis Diderot (1713-1784), filósofo, escritor e cofundador da Encyclopédie, uma das mais proeminentes figuras do Iluminismo.
[9] Voltaire (1694-1778), escritor e filósofo iluminista francês.
[10] Paul-Louis Courrier (1772-1825), escritor político francês.
[11] Félicité Robert de Lamennais (1782-1854), padre, filósofo, político e escritor francês.
[12] Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), filósofo e economista francês.
[13] George Sand (1804-1876), escritora francesa, um dos principais nomes do Romantismo francês.
[14] Jules Michelet (1798-1874), historiador e filósofo francês.
[15] Édmond About (1828-1885), romancista, dramaturgo e jornalista francês.
[16] Jacques Élisée Reclus (1830-1905), geógrafo, escritor e anarquista francês.
[17] Émile Erckmann (1822-1899) e Alexandre Chatrian (1826-1890), autores franceses que escreveram em conjunto quase a totalidade de suas obras, assinando como Erckmann-Chatrian.
[18] Alexandre Dumas (1802-1870), romancista e dramaturgo francês.
[19] Joseph Ernest Renan (1823-1892), escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês.
[20] No original: « Show ! Chaud (les marrons) !! Scho…penhauerde !!! ». “Chaud, les marrons !” era uma expressão comumente utilizada por vendedores de castanhas quentes em cidades francesas durante o outono ou o inverno. Figurativamente, a expressão também é usada para solicitar que as pessoas abram caminho quando algo pesado e/ou quente está passando, e para designar algo delicado ou perigoso.
[21] Em francês, « peuple », « déjeuner », « livre », « domicile », « sacré nom de Dieu », respectivamente.
[22] Rue de Rivoli, uma das ruas mais famosas de Paris, onde estão concentradas inúmeras lojas de marcas de luxo.
[23] O Boulevard de Bonne-Nouvelle, via situada nos limites do 1º e do 10º arrondissements de Paris, faz parte da cadeia dos Grand Boulevards.
[24] Palais du Luxembourg, atual sede do Senado francês, é um palácio construído dentro do Jardin du Luxembourg, localizado no 6º arrondissement de Paris.
[25] Parc Monceau é um parque público localizado no 8º arrondissement de Paris.
[26] Pont de la Concorde, localizada em Paris, liga a Place de la Concorde à Assembleia Nacional.
[27] Émile Gautier é frequentemente citado como o primeiro francês a utilizar o termo “Darwinismo social”. Instado a participar do debate sobre a aplicação das teorias de Darwin, Gautier propõe, em um tratado anarquista intitulado Le Darwinisme social, publicado em 1880, uma interpretação de viés socialista das teorias, em que sociedade deveria significar cooperação social, e não uma competição brutal.
[28] Originalmente “cat o’ nine tails”, é um instrumento de tortura semelhante a um chicote com nove cordas, usado principalmente pela Marinha e pelo Exército britânicos.
[29] Referência à Batalha de Hastings. Ocorrida em 14 de outubro de 1066, a batalha marcou a vitória de Guilherme, Duque da Normandia, sobre o rei anglo-saxão Haroldo III na disputa pela sucessão ao trono da Inglaterra, dando fim a 500 anos de domínio anglo-saxão.
Como citar este texto
GAUTIER, Émile. A anglomania. Tradução e Apresentação de Fernanda Garcia. França fin-de-siècle, 27 mar. 2026. Disponível em: https://francefindesiecle.substack.com/p/a-anglomania/. Acesso em: [inserir a data].
Informações
Texto de base para a tradução: GAUTIER, Émile. L’anglomanie. L’Écho de Paris, Paris, ano III, n. 3118, p. 2, 01 dez. 1892.
A tradução foi revisada por Daniel Augusto P. Silva, Amanda Marinho, Carolina Pires e Rita Loureiro.


Muito interessante e atual!